patrocínio

Como funciona

Abdulai Jalloh, 24, Serra Leoa 
Abdulai participou por sete meses do programa. Hoje é membro do Four Seasons, uma cadeia internacional de hotéis, trabalhando na unidade de Atenas.

“O programa do Planeta de TODOS acreditou em mim e fez com que eu mesmo acreditasse no meu potencial. Eu me sinto abençoado porque essa ajuda chegou no momento que eu mais precisava na vida. Foi fundamental no meu desenvolvimento”.

Entrevista seletiva dos perfis para residentes do projeto, que são derivados por ONGs locais e/ou voluntários com larga estância e experiência na crise dos refugiados. Pregamos e exigimos respeito a diferentes opções políticas, religiosas, de gênero, etc, entre os moradores. Contrato de seis meses, com opção de prorrogação. Premissa básica da gestão e limpeza dos apartamentos por parte dos beneficiários do programa, bem como planilha de gastos.

NÃO É UM HOTEL: a responsabilidade é de TODOS.

  • Os moradores estão expressamente proibidos de consumir e/ou traficar drogas, dentro ou fora da casa.
  • O consumo e/ou armazenamento de álcool é expressamente proibido dentro de casa.
  • Qualquer contato ou envolvimento com gangue, máfia, contrabando ou esquema de fraude é expressamente proibido.
  • Moradores e funcionários estão proibidos de trazer qualquer pessoa (amigos, familiares, parceiros românticos ou sexuais etc.) de fora do programa para dentro de casa (para visitar, dormir, etc.).
  • Não é permitida na casa violência (verbal ou física), racismo ou qualquer outra forma de discriminação. Qualquer ocorrência de comportamento violento ou discriminatório pode justificar a expulsão imediata do programa.
  • A presença em todas as aulas, provas, atividades e assembleias gerais é obrigatória para todos os residentes.
  • A conclusão dos testes e tarefas domésticas é obrigatória para todos os residentes.
  • Os residentes podem pedir permissão a um funcionário para faltar a uma atividade por causa de um compromisso importante, como uma consulta médica, uma consulta com autoridades gregas, entrevista de emprego ou para frequentar a escola ou o trabalho. Os residentes só podem sair de uma aula ou atividade agendada após receberem permissão de um membro da equipe.
  • Os residentes devem respeitar os colegas de casa, membros da equipe, voluntários e as regras do programa. Casos de desrespeito aos membros deste programa ou às regras serão levados em consideração em sua avaliação. Casos graves de desrespeito podem causar o desligamento imediato do residente.
  • Não é permitido barulho depois das 22h e antes das 7h. Não é permitido acender luzes, fazer barulho ou atender a ligações no quarto à noite, quando outros colegas de quarto estiverem dormindo. É preciso respeitar os horários de sono dos vizinhos e colegas de casa.
  • Os moradores devem realizar uma limpeza geral uma vez por semana. Nos demais dias da semana, todos os residentes e funcionários devem limpar imediatamente após sujar qualquer ambiente. A rapidez na limpeza é particularmente importante depois de usar a cozinha ou os banheiros comuns. É trabalho de todos manter todas as partes da casa sempre limpas.
  • A alimentação deve ser bem administrada. Ao cozinhar para um grupo, é preciso se certificar de quantas pessoas irão comer e suas restrições de dieta. Não é permitido desperdiçar comida.
  • Todos os beneficiários devem contribuir com tarefas como limpar, arrumar a casa, ir ao mercado e cozinhar.
  • Todos os beneficiários devem limpar espaços comuns, devem manter suas camas e espaços pessoais em seus quartos sempre limpos e arrumados, para o benefício de seus companheiros de casa.
  • • É necessário fazer uso consciente de aquecimento, ar condicionado, máquina de lavar, água, eletricidade e outros recursos. É preciso desligar o aquecedor de água após o banho. É preciso ligar a máquina de lavar apenas quando houver uma carga completa de roupa. Não é permitido deixar luzes ou aquecedores ligados em salas vazias.
  • Não é permitido retirar nenhum móvel da casa sem autorização da equipe do programa. É importante manter a casa em ordem e ter cuidado para não danificar nada.
  • Sempre que houver uma conta de despesas comunitárias na porta ou embaixo da porta é preciso avisar a direção imediatamente.
  • Todo residente receberá uma cópia da chave da casa. A mesma deverá ser devolvida à organização quando o residente sair do programa. No caso de perda ou dano, será preciso fazer uma nova cópia para uso pessoal e a nova cópia deverá ser entregue à organização ao final da estadia. Não é permitido compartilhar a chave com pessoas de fora do programa.
  • A reunião semanal é obrigatória para todos. A data será sempre confirmada com antecedência.

Contrato de participação na língua materna.

Após o crivo da coordenação e posterior entrevista, os candidatos aceitos no programa são oficialmente convidados a formarem parte da equipe e a se apresentarem no apartamento designado para a sua moradia. O processo de check in é simples e os novos participantes, primeiramente, recebem os contratos - com duração inicial de seis meses.

Não há pressa. Eles devem ler item por item, tomando o tempo que julgarem necessário para a assinatura. Destacamos sempre um coordenador para estar atento a qualquer dúvida que possa surgir. Ainda que a comunicação do Planeta de TODOS, em geral, seja na língua inglesa, temos traduções dos respectivos contratos em todas as línguas maternas ou oficiais dos países de origem: árabe, farsi, francês, além do próprio inglês. Cada beneficiário deve assinar as duas vias do contrato, o mesmo faz a coordenação e cada parte fica com um documento ao final da formalidade.

Após a assinatura, proporcionamos um kit de boas-vindas que é composto de pasta e escova de dentes, antisséptico bucal, corta unhas, shampoo, travesseiro, lençol e edredom. Além das cópias das chaves, os novos residentes também recebem um manual de contatos do setor humanitário por todo o país. Por fim, um pequeno tour é feito para ensinar, aos poucos, o  uncionamento da casa desde wifi até o sistema de calefação do apartamento.

Alugar apartamentos: desconstruir a xenofobia.

Alugar uma propriedade em solo europeu com fins de moradia para imigrantes é uma das tarefas mais desafiadoras de todo o escopo do projeto. Existe ainda uma grande resistência por parte da comunidade local, para não dizer racismo e/ou xenofobia, que está enraizada, sobretudo, na falta de informação. Em Roma, por exemplo, mais de três meses se passaram sem que nenhum proprietário aceitasse nossa proposta, mesmo com todas as garantias bancárias e contratuais. Foi preciso uma campanha nas redes sociais para, enfim, encontrar alguém que estivesse disposto a aceitar rapazes de origemafricana em casa.

Aos poucos, entretanto, a equipe do Planeta de TODOS foi ganhando não só experiência, como transmitindo a necessidade aos próprios residentes de cuidar dos imóveis da casa e de ter atenção com a boa convivência com os vizinhos. Na Grécia, por exemplo, existe a hora da “siesta”, em geral, entre às 15h e 17h. Um aspecto cultural que deve ser respeitado, ou seja, nada de músicas em alto volume ou conversas por telefone na varanda.

Também prezamos pelo pagamento impecável de qualquer conta relacionada ao apartamento e sempre deixamos o convite para que os proprietários visitem a residência e conheçam os rapazes. Em Roma, por exemplo, em diversas oportunidades a proprietária do apartamento jantou com os nossos então residentes e trouxe até os filhos. Esta relação transparente e de respeito, no final, trouxe frutos importantes: três apartamentos antes alugados pelo Planeta de TODOS agora estão sob responsabilidade de ex-residentes, que emancipados e com contrato de trabalho por tempo indeterminado, assumiram a responsabilidade pela propriedade e até hoje usufruem dessa boa convivência.

A educação liberta e emancipa.

Além do conceito de housing project ou safe place, o projeto de alternativa habitacional do Planeta de TODOS foi desenhado no sentido de proporcionar, para a grande maioria, a primeira experiência dentro de um programa scholarship. Ainda que não seja com um diploma ou certificado de conclusão, o ideal de imersão na educação ficou entendido como a alternativa mais viável não só para a integração social, mas também rumo à emancipação.

O tempo de espera dentro do processo de asilo é longo. Este limbo social pode e deve ser revertido em ganho escolar. Todas as aulas são ministradas dentro dos próprios apartamentos onde eles residem. Daí a importância de se pensar, também, em propriedades que possuem salas de estar em tamanho suficiente para mesas deestudo, lousa e audiovisual.

Desmistificando o mercado de trabalho.

A independência financeira é fundamental no processo de emancipação. Por mais que esta seja uma frase óbvia, é preciso salientar que são muitos os obstáculos culturais a serem vencidos para que o residente sinta-se capaz e motivado para desempenhar profissionalmente novas funções ou mesmo cargos já ocupados em seus países de origem.

Nosso protocolo de saúde.

O projeto de integração sócio-laboral não pode assumir qualquer tipo de responsabilidade quanto à saúde física e mental dos beneficiários do programa. No entanto, parcerias com outras organizações não-governamentais mostraram-se muito efetivas no sentido de encurtar os longos prazos para consultas dentro do sistema público de saúde.

Em Atenas, a joint venture mais eficaz foi realizada com a ONG alemã Medical Volunteers International (MVI). Contanto com um staff médico de diversas especialidades, nossos residentes tiveram a oportunidade de tratamento rápido contra diversas enfermidades, inclusive com remédios providos gratuitamente.

A MVI também é responsável pelo processo de check-up médico de cada um dos candidatos aprovados para entrar no programa. A partir deste processo, cria-se um “passaporte médico” para cada um dos beneficiários no qual se faz um acompanhamento constante. A equipe também conta com dermatologistas, fundamentais no processo de identificação de doenças de pele, que infelizmente são comuns em refugiados e solicitantes de asilo que vivem nas ruas da capital grega.

Assistência legal personalizada.

No ímpeto da lei da sobrevivência, quando ter o que comer e onde dormir tornam-se os martírios prioritários, a grande parte dos beneficiários do programa de alternativa habitacional do Planeta de TODOS é acolhida sem que saibam, em plenitude, todos os seus direitos e deveres como solicitante de asilo ou refugiado reconhecido pelo governo local. Muito embora não contemos com advogados dentro do nosso organograma, foi fundamental a criação de uma rede de colaboradores para uma assistência legal eficiente. Ainda mais com as constantes mudanças na lei de imigração.

A importância da informática

Não é novidade na sociedade moderna que o domínio da informática, ou de elementos básicos como o pacote Office, é peça fundamental na tentativa de entrar em praticamente qualquer mercado de trabalho hoje no mundo.

No entanto, imigrantes de diversos países, especialmente da África subsaariana, chegam ao Velho Continente com pouco ou quase nenhum conhecimento de computadores. Muito embora se comuniquem relativamente bem com os seus smartphones, existe ainda um gap educacional importante no que vem a ser o uso sem assistência de hardwares e softwares. Portanto, estabelecemos dentro do Planeta de TODOS algumas premissas básicas enquanto a workshops específicos de informática.

Administração e o conceito de comunidade.

Um dos pilares do nosso projeto de integração social e laboral é quebrar o conceito do “isso não é meu, então não estou nem aí”. Oriundos de campos de refugiados ou outros projetos sociais que provêm nada mais que um pseudo-lar de sobrevivência, os imigrantes em solo europeu carecem do ideal de uma administração responsável. Ou seja, quais são as implicações e responsabilidades financeiras para com um projeto habitacional. Em suma, seguindo a linha de que “você não está em um hotel”, eles devem aprender os conceitos básicos de como administrar um lar e que devem fazer uso moderado e comunitário dos itens básicos que são oferecidos, como luz e água, por exemplo. Afinal, se a ideia final é a emancipação, por que não já aprender como administrar uma casa desde o início?

Cozinhar e confraternizar

Pergunte a qualquer pessoa que já esteve num dos vários e famigerados campos de refugiados pela Europa e esperou por horas numa fila para conseguir um prato de comida: marmitas com massa, arroz frio, pedaços de frango e pele, batatas cozidas sem sal…É claro que falta dignidade. E também mediação cultural para entender o paladar e as necessidades nutricionais de quem tanto necessita um mínimo de afago.

Entendemos dentro do nosso projeto social que deveríamos ouvir nossos residentes, e não impôr sabores que eles não querem ou que não estão ainda preparados. Entendemos também que a culinária é um dos poucos laços remanescentes da terra de origem e que isso deve ser respeitado. Mais do que isso, ficou claro ainda que a gastronomia estreitou laços entre coordenadores, voluntários e beneficiários. Novos sabores promoveram uma confraternização semanal após cinco dias de árduo esforço para todas as partes.

Redescobrindo o lazer

1. Fazendo as pazes com o mar

Atenas e Roma são cidades quase litorâneas - com praias bastante próximas das respectivas capitais. Como a grande maioria dos imigrantes chegam à Europa em botes e pequenas embarcações, ou seja, em viagens bastante traumáticas, organizar excursões ao mar tornou-se uma forma leve e descontraída para os nossos residentes “fazerem as pazes com o mar”. Pouco a pouco, organizamos piqueniques e pequenas atividades para quem quisesse aprender a nadar e/ou perder o medo do mar. Nada de incursões longe da orla: a ideia sempre foi a descontração e o lazer, sempre com as devidas medidas de segurança.

2. Descobrindo as riquezas culturais

Consideradas capitais europeias da arte e museus ao ar livre, Roma e Atenas têm muita riqueza cultural a oferecer não só aos turistas, mas principalmente para quem tem como obrigação integrar-se socialmente à sociedade local. Por isso, sempre promovemos excursões com os nossos residentes, como para Acropolis, Parthenon e Coliseu. Por meio da ajuda voluntária de guias e professores locais, nossos passeios foram e continuam sendo ferramentas importantes para que os imigrantes possam entender um pouco mais sobre as origens das duas sociedades e legado deixado por elas.

3. Personal training

Por meio de convênio com academias locais e doações particulares e pontuais, conseguimos estabelecer uma rotina de personal training para os nossos residentes - especialmente antes do período pandêmico - dando a eles gratuitamente a oportunidade de ter acesso a uma academia de musculação.  Mais do que isso, também oferecemos acompanhamento in loco para instrução sobre o uso de cada aparelho e como obter um melhor desempenho e evitar lesões. Por fim, instruções básicas junto aos workshops de nutrição, já que nada adianta levantar quilos e mais quilos se você não estiver alimentado e dando ao seu corpo a energia necessária para a realização da atividade física.

4. Futebol antiestresse

Esporte favorito entre todos os residentes que já passaram pelo Planeta de TODOS, o futebol sempre funcionou como uma forma de aliviar o estresse diário entre todos os envolvidos. Seja em confrontos contra outras organizações em partidas amistosas, ou mesmo entre quem forma parte do PDT, jogar bola foi de longe a atividade física mais importante praticada dentro do nosso programa. Especialmente pelo fato de Atenas proporcionar campos e quadras de uso público, sem a necessidade de um budget especial para a realização das partidas.

5. Parabéns pra você

Quando compramos um bolo e comemoramos, pela primeira vez, o aniversário de um dos residentes, escutamos que “essa é a primeira vez que alguém me canta parabéns”. Notamos que entre os traços culturais dos nossos residentes, não existe o costume da celebração um pouco mais efusiva e especial. Com isso, criamos um calendário dos aniversários e colocamos em nosso cronograma para que essa data não passe nunca em branco.

Follow up de ex-residentes

Após a consagração do processo de emancipação e posterior saída do programa, a coordenação do Planeta de TODOS segue em contato com os ex-residentes de forma a acompanhar a evolução pessoal e laboral de cada um em território europeu. Quais são os desafios enfrentados no quesito integração social que ainda impõe barreiras? Priorizamos conselhos no sentido de educação financeira e como gerir gastos pessoais e com os familiares, que ainda seguem em seus países de origem. Não temos mais responsabilidades quanto ao desempenho de cada um, mas consideramos importante a manutenção deste follow up de forma a entender onde acertamos e onde erramos na evolução de cada um dos nossos beneficiários de forma a sempre aprimorar o programa.

Voluntariado é capacitação

O Planeta de TODOS é um projeto social que também prima pela participação de voluntários em seu programa - por entender que se trata de uma ferramenta de transformação conjunta. Ou seja, que não só os beneficiários do programa usufruem de novos caminhos, mas também as pessoas que fazem parte deste longo processo. Incentivamos candidatos com viés ativista, histórico e/ou experiência em ciências sociais.

Grécia

Afegãos deixam projeto após obterem emprego e independência financeira